"(...)Não acontecia nada e o tédio não passava e ele sempre chegava em casa apenas pra ficar ali olhando o nada, sem nem conseguir dormir de tão vazio que se sentia. Até que naquele domingo, por algum motivo, a câmera em sua escrivaninha passou a lhe importunar profundamente. Com uma naturalidade um tanto bizarra, então, pressionou o botão vermelho e desligou-a, logo fazendo o mesmo com o resto das câmeras da casa – e pensando que muitos outros ao redor do mundo, e até mesmo muitos outros naquele edifício, tinham por costume fazer o mesmo de vez em quando; pensando que aquilo jamais poderia trazer-lhe grandes conseqüências.

Mas não."
O CARRASCO DE ÓRION

16.11.04

 
Rubens ainda passou muito tempo sentado, fitando a mercúria desligada em sua mão, incapaz de acreditar que tinha se passado por tão idiota e, pior ainda, que tinha de fato agido como um.

De que tinha adiantado toda sua criptografia, seus IPs e IDs ocultos, o nick, os embaralhadores de rastreio? De que tinha adiantado se cada invasão sua, cada derrubada de servidor, cada tomada de sítio, cada alteração, cada manifesto postado, haviam sido filmados e retransmitidos ao vivo? A descoberta de Caio não era, afinal, mais do que juntar dois e dois, não muito diferente do que ele fazia agora com o próprio Eduardo.

Sim, Rubens era Big H. Mas nem sempre fora.

* * *

Fora numa quinta-feira. Ele deixara a mercúria ligada enquanto pegava o café, ativava Alcmena e começava os preparativos para a operação. Reviu os dados que havia recebido na manhã do dia anterior, enquanto meditava sobre Big H. Já havia encontrado o sujeito uma vez, muito rapidamente, ouvido falar dele muitas outras, em especial sobre sua wall, que diziam ser impenetrável.

A voz sintetizada de Alcmena interrompeu seus pensamentos.

Ponto 1 ativado. Acesso de Streamline por Alpheus garantido.
- Levante o Gibraltar, cuidado nunca é demais.
Afirmativo.
- E tente hackear outra linha pelo Peneus. Se eu estiver certo, duas vão ser até pouco.
Afirmativo.

Rubens apoiou o café de volta na mesa, através do mar de ícones holográficos que giravam ao seu redor. Ele não gostava de trabalhar para ninguém além de si mesmo, não gostava daquela primeira tarefa, e gostava ainda menos do tal E*RsT*s, que a havia delegado; mas dera sua palavra. E tinha muitos erros a consertar.
Pontos 2-12 ativados. Acesso de Streamline por Peneus garantido.
- Deixe os outros endereços, Mena, um trabalho de cada vez.
Afirmativo.
- O acesso do E*RsT*s tá bloqueado?
Afirmativo.

Ótimo. Não teria que se preocupar com aquele cretino pondo a mão no que descobrisse.

Aberto servidor #Nemea#. Lançar sinal.
- Não, abortar sinal.
Afirmativo.
- Passe um scanner e veja se há mais alguém no servidor.
Negativo.
- Bom.

Se E*RsT*s dizia para procurar naquele servidor, era porque o sujeito havia passado muito tempo lá fuçando. E a tal Nemea era um ramo da June, que por sua vez era subsidiária da Z, o que significava que: 1. E*RsT*s ou era contratado da Z, ou tinha algum interesse em protegê-la; e 2. Estava mexendo com os rúfers, e o que quer que tivesse naquela merda de Nemea, era um puta grito-mestre.

- Mena, pega os registros de visitas ao servidor, e procura o I.D. que te passei de manhã, por favor.
Procurando... Nenhum registro do I.D. encontrado.

Ele já contava com isso. Era de se esperar que o sujeito pudesse apagar os próprios rastros, mas Rubens tinha um palpite que podia ser a solução para encontrá-los.

- Tenta procurar por torres de arquivos do tipo .sdr.
Procurando... Localizado: 1.226 arquivos em 2 torres.
- Pode conseguir acesso a eles?
Negativo. Torres lacradas.
- Executa o Boeing 767 e derruba logo essas merdas.
Alvo não reconhecido: “essas merdas”.
- Eu quis dizer as torres de .sdr, Mena.

Computador idiota.

Alvo alterado: torres #N43h01 e #N43h02. Acionando Boeing_767.exe... alvo destruído.
- Ótimo. Agora faça uma busca nos arquivos .sdr, palavras-chave Typhoon ou Equidna.
Procurando... Encontrado: 3 arquivos. Todos confidenciais em nível 12.
- Listar.
Typhoon_05-10-31.sdr, Typhoon_10_11_31.sdr, Typhoon_02_13_32.sdr.

O Typhoon tinha estado lá. Três vezes. Roubando arquivos nível 12. Caralho. O Typhoon. Aquilo era muito grito, ele tava alfinetando lá no alto.

- Abre o primeiro. Só a parte de texto.
Segue o registro: “Invasão detectada com 37 minutos de atraso. O invasor, ID desconhecida, deixou mensagem-assinatura de hacker Typhoon. Assinatura verificada como idêntica a outras do mesmo invasor, provavelmente a mesma pessoa. O invasor usou uma versão alterada do programa tipo...”
- Não interessa. Quero saber o que ele veio roubar. Localizar expressão “arquivos” e “roubados” simultâneas no texto.
Localizado: 4 ocorrências.
- A primeira.
“... foram um total de 22 arquivos roubados, todos referentes a transferências de pessoal e equipamento para o projeto Ártemis, por meio dos recursos da June. Recomenda-se extrema cautela, visto que a interferência do mesmo, caso venha a tomar ciência dos objetivos do projeto, ameaça todas as projeções Ambrosiae, adquirindo proporções desastrosas. As medidas de segurança sugeridas acima devem ser instaladas imediatamente, sendo também aplicadas aos servidores de Ártemis e June; se arquivos de lá forem roubados, o risco é ainda maior.”

Caralho. Caralho, caralho, merda, puta que o pariu, os palavrões eram a única coisa na cabeça de Rubens. Mesmo naquela época ele já era esperto o bastante pra saber que quando a palavra Ambrosiae era mencionada e você a ouvia, ou lia, sair inteiro pra contar a história passava a ser uma perspectiva otimista. Na verdade, estava surpreso de ter ficado ileso tempo o bastante para ler tudo aquilo, e no instante em que pensava isso, e começava a matutar que a melhor explicação possível era a de estar sendo auxiliado enquanto o fazia, Alcmena bipou.

Uma mensagem para você.
- Quê?! – o susto da voz estava atrasado em relação ao da mente, que já passara à especulação. – Que mensagem?
Convite para bate-papo em áudio.
- E o remetente? – perguntou, já adivinhando a resposta.
Assinou apenas “H”.

Merda, os arquivos iam ter que esperar.

- Aceita o convite, Mena.
Iniciando.

O ícone de “Big H” projetou-se pela sala, um leão dourado, seguido pela voz eletronicamente distorcida para evitar reconhecimento, através do emissor do fone.

- Olá, Alseides. Acho que você já fuçou o suficiente, não?

Merda de novo. Rubens não tinha a menor intenção de encarar o cara assim, de frente e de surpresa ao mesmo tempo. Se metade do que diziam da wall fosse verdade, não teria chance. Mas agora, fudido, fudido e meio.

- Acha, é? – retrucou Rubens.
- Calma, não vou fazer nada. Ainda. Acho que podemos tirar vantagem desse encontro.
- Podemos?
- Você está interessado nas projeções Ambrosiae.

Ele estava interessado principalmente era em garantir sua própria segurança.

- E?
- Calma, meu bira, você parece muito ansioso. Se está mesmo interessado, eu tenho muito a te contar.

Ah, mas não tinha mesmo, até porque se tivesse, não ia se oferecer pra contar. Ninguém era burro de fazer isso. “H” só queria tentar descobrir o máximo antes de acabar com ele, talvez até tentando traçar a origem de sua conexão no caminho – nada que fizesse muita diferença pra ele, que parecia já saber quem Rubens era e para quem trabalhava, embora talvez não o que ele tinha ido fazer lá. Provavelmente fazia aquilo só para se entreter, como um gato brincando com um rato antes de comê-lo.

Rubens deu um leve empurrão no botão de seu microfone, bloqueando a emissão do bate-papo.

- Mena, status do Gibraltar.
Funcionando integralmente.
- Porra nenhuma que tá. Mena, direciona o Alpheus pra fora do servidor.
Defeito/ mal funcionamento. Impossível completar.
- Filho da puta! Mena, traz o Alpheus de volta pra cá agora!

A voz de “Big H” voltou a soar pelo fone:

- Ah, eu tentei evitar isso. Juro que tentei.

Defeito/ mal funcionamento. Impossível completar.
- Puta que o pariu!
- Ora, Alseides, não se desespere. Mantenha a calma.

Rubens puxou de volta o botão do microfone:

- Calma é o caralho! – gritou, e após apertar o botão novamente, completou. – Mena, aciona o arrow, alvo... temos a I.D. do usuário “H”?
Positivo.

O filho da puta era tão convencido que não tinha nem se dado ao trabalho de esconder. Era a melhor chance que tinha

- Acionar arrow com alvo nele. Função prioritária: penetrar e destruir sistemas de memória e armazenamento de dados.
Arrow acionado.
- Mas o que é isso? – indagou a voz distorcida de “Big H”, sem disfarçar o sarcasmo. – O ratinho acuado resolveu brigar?
- Mena, resultado do arrow.
Enviado. Detido na wall do usuário “H”. Dano provável causado: nenhum.
- Acione novamente.
Arrow acionado... Enviado. Detido na wall do usuário “H”. Dano provável causado: nenhum.
- É inútil, Alseides. Pare com essa besteira.
- Acionar club, alvo usuário “H”, função prioritária desativar a wall.
Club acionado. Wall do usuário “H” atingida. Dano provável: nenhum.
- Tudo bem. – interrompeu “Big H” com falso pesar. – Não diga que eu não avisei.

Poucos segundos depois, as representações holográficas começaram a falhar.

- Mena, status.
Scanners detectaram interferência externa. Danos extensos: sistemas de projeção, som, programas arrow, club, Alpheus, Peneus, Gibraltar. Danos menores: banco de dados em texto, áudio, vídeo, memória, processa.
- Mena? Mena! Desligar recursos holográficos de navegação, som e comandos por voz.

O computador respondeu por uma mensagem de texto no monitor, onde se lia “afirmativo” enquanto a sala retornava a escuridão, e Rubens debruçava-se sobre o teclado e digitava freneticamente.

Agora o único jeito era resolver aquilo na mão.

Uma mensagem de “Big H” piscou no monitor em meio às inúmeras linhas de código que Rubens interpretava com olhos treinados:

“Pare, Alseides. Ainda é tempo”.

Ele não perdeu tempo respondendo. Usou toda sua concentração para separar, entre o mar de programas invasores que o scanner agora listava, aquele que procurava. Não precisou muito esforço para saber que era o claw.exe, nem que fosse pelo gosto horroroso de seu adversário para nomes. “Big H” continuou com as mensagens.

“E*RsT*s é mto burro d gastar vc aki. Nemea ñ tem nada q interesse a ele. Vc vai c queimar por nada aki. Desiste e t deixo ir.”

Rubens riu consigo mesmo e voltou a digitar após avaliar as propriedades do claw e confirmar suas suspeitas. Outra mensagem pipocou cerca de 15 segundos depois.

“Já cansei Alseides. Vc ñ tem + wall nem + nada q possa derrubar a minha, e c tivesse ñ derrubaria pq isso é impossível, e c tivesse defesa nada t defenderia do meu vírus. Volte pro E*Rst*s e mande ele desistir d procurar aki.”

- Seu idiota. Você já me deu os meios de te vencer. – Rubens murmurou sozinho, enquanto teclava o enter, marcando o final do código que tinha digitado pelos últimos cinco minutos, antecipando a mensagem que escreveria a seguir.

“Idiota. E*Rst*s ñ quer saber d nada da Nemea, ele ñ me mandou pegar nada daki.”
“Ele t mandou fazer o q entaum?”
“Me livrar de vc.”
“RPC! Vc? C livrar d mim?”
“Vc é um imbecil pq acha q nenhum prog pode furar sua wall, e nenhuma wall pode barrar seu vírus.”
“Ñ sou imbecil pq estou certo.”
“Entaum vai verificar o seu status agora e ver qual dos 2 ganhou.”

Não houve resposta nos 3 minutos seguintes, e Rubens gargalhava, sabendo que agora era seu oponente quem não podia perder tempo com as mensagens.

“Pois é, eu roubei os dados do claw e usei ele contra vc. E vou roubar sua wall tbm, pq acabo d conseguir os dados dela. E tbm aproveitei p redirecionar os sistemas d emergência da Nemea p sua conexão, a segurança deles vai tá chegando aí por agora. Vc logo vai tá no mínimo preso c ñ tiver morto. Já q fikei c sua wall e o claw, tô pensando em passar a usar seu nick tbm e despistar todo mundo. Fike feliz, talvez isso acabe t ajudando.
Bom, t+, inda tenho um bando de coisas p fazer. Adeus e obrigado, seu merda.”

Não houve mais resposta nenhuma. Rubens bebeu o resto do café, desligou o computador e voltou pra casa a pé.

No dia seguinte, não atendia mais pela alcunha de Alseides.



posted by Heitor 01:57

 

 

 

 

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A estória até agora (primeiro post em 22/07/2003):

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O LAR DO CARRASCO

Local: Rio de Janeiro, Brasil.

Época: 2058 D.C.

Condições: As cidades e as pessoas não mudam - não no que interessa. Mas se você se preocupa com os detalhes, eis um glossário para os perdidos.

DRAMATIS PERSONAE

Aécio: tutor de Márcia, a quem acolheu e criou desde muito nova.

Alice: mais nova residente do edifício de Eduardo, onde ocupa o décimo primeiro andar. Razoável, amigável, tolerante, bem-humorada, dona de olhos muito claros. Ocasionalmente causa um asco terrível e inexplicável a ele.

Ana: mulher misteriosa que Eduardo encontra no Jason’s. Pálida, cabelos da cor do fogo e olhos de um escuro imenso, fala de maneira oblíqua, desaparece quando bem entende e parece conhecer todos os segredos. Samantha alega que ela mente ao dizer seu nome.

Big H: hacker investigado por Caio, cujos logs costumava alterar de maneira provocativa.

Caio: músico do andar acima de Sônia. Sentia falta de intimidade. Freqüentava forums sobre sexo. Andava mexendo com um hacker chamado Big H. Foi encontrado morto no próprio quarto, talvez assassinado; muitas suspeitas recaem sobre Eduardo. Este por sua vez acha que foi Ana.

Dr. Cristóvam Ramirez: proprietário dos laboratórios Ramirez, foi o cabeça do projeto Ártemis. Tentou dissuadir, em vão, Oxford a não fugir com o Chronos. Desapareceu alguns anos atrás. Tem predileção por vocábulos de negação.

Dr. Richard Oxford: dono do restaurante onde Soraia atualmente trabalha. No passado, foi parte da equipe do projeto Ártemis, trabalhando com Ramirez. Desenvolveu o Chronos, um potente agente contra o envelhecimento, que por sua vez gerou um vírus terrível que exige vidas humanas para ser contido.

Dra. Anna Ericsson: bióloga, suas descobertas levaram à criação do projeto Ártemis, o qual integrou. Sônia verificou pelos arquivos que ela tinha os olhos escuros.

Eduardo: fio condutor da narrativa, é mestre em circuitos tecno-orgânicos de precisão, artista plástico frustrado e famoso bem sucedido. Profundamente entediado, adquiriu os hábitos peculiares de desligar as câmeras do seu vlog, de encontrar-se com uma ruiva de olhos escuros, e de ser suspeito de homicídio.

Heitor: autor desta estória.

Higínio: vigia dos registros de logs. Trabalha para a Z, mas tem um supervisor direto de identidade ainda desconhecida.

Homem de Capote Marrom: estranho de olhos muito claros por quem Márcia sentiu-se atraída uma noite no Jason’s, mas com quem nunca nem ao menos travou diálogo.

Irene: mora abaixo de Eduardo. Tem uma constituição física frágil mas esteticamente perfeita. Acredita em explicações lógicas para os sentimentos, e que o amor é uma projeção. Gosta de discutir e prender os outros interlocutores em armadilhas de argumentação lógica; Eduardo é o único capaz de rechaçá-la, o que tem por hábito fazer.

Jason: inglês, dono do bar Jason’s, freqüentado por Eduardo, trabalhou para a Z na busca dos restos do veículo ARX-Maglev.

Jorge: Engenheiro termodinâmico, reside dois andares abaixo de Eduardo, com quem simpatiza. Aficcionado pela profissão, metódico, muito sério no que faz, tem surtos de escapismo frenético.

Márcia: vizinha de Eduardo, mora no 1° andar do prédio. Perdeu os pais e o irmão gêmeo ao fugir na ARX-Maglev, quando criança. Pensa pouco antes de agir. Adora vermelho.

Maria: síndica do prédio, reside dois andares acima de Eduardo. Autoritária. Irrita-se com facilidade.

Miguel: vizinho de Eduardo, mora no andar imediatamente acima ao dele. Está de viagem há um mês e meio e deixou uma procuração com Alice para as reuniões de condomínio.

Mr. D: bio-hacker, aparentemente sub-contratado pela Z ou pela Styx. Criou a trava de segurança do vírus que o Chronos gerou.

Raphael Pontes: romancista de renome, autor de “De Fogo e de Vento”, a quem Sônia e Márcia muito apreciam.

Rubens: vizinho do 5° andar de Eduardo, é o mais jovem residente. Provocador e arrogante, irrita muito a Alice.

Safada_23, Fernanda, Taíse, Bruno, Carol, Luísa, Netrap, Hentai_Princess, Sweet, O outro e Slayer: participantes do holo-fórum “Debatendo Sexo em Aberto”. Caio acredita que Slayer seja, na verdade, Ana, e que ela tenha lhe enviado bilhetes. Slayer declarou que Caio morreria se continuasse a bisbilhotar Big H.

Samantha: irmã gêmea de Sônia, com quem divide agora o mesmo corpo e vida. Terrorista, promoveu diversos atentados aos laboratórios Ramirez. Deixou várias anotações misteriosas para a irmã, que as enviou a alguém que assina como R.

Sônia: repórter, mora dois andares acima de Márcia. Não é filha de um mortal. Sacrificou metade de sua vida para salvar a de Samantha, sua irmã gêmea. Recebeu bilhetes misteriosos que desconfia terem sido feitos por Eduardo. Rói as unhas. Tem uma curiosidade suicida.

Soraia: vizinha de cima de Márcia, bióloga em formação educacional, mas atualmente trabalhando como chefe de cozinha para Oxford. Já foi objeto do amor de Eduardo, que ainda lhe guarda rancor pelo desprezo que recebeu em troca; atualmente acusa-o de destruição de propriedade e do assassinato de Caio, nessa ordem. Tem imensas coleções no apartamento e olhos castanhos muito largos. Não gosta que gozem em seu edredom.

Tiago: antigo amigo de Eduardo, com quem perdeu o contato, reside na cobertura de seu edifício, onde passa o dia rabiscando desenhos, poemas e semelhantes obras de arte. Quieto e alienado do restante dos moradores, tem um séqüito de lags extremamente fiel.

VOCABULÁRIO

- .sdr: abreviatura de system damage report (relatório de danos no sistema); usada para identificar um formato de arquivo que mistura voz, texto e imagem para reconstituir e avaliar eventos danosos a um sistema digital.

- Amp: formato de gravação áudio/vídeo digital que consagrou-se como o mais rentável de todos, e eventualmente tornou-se sinônimo da gravação. Note-se que, hoje em dia, a capacidade de armazenamento dos drives caseiros (que existem em grande quantidade, cada pessoa possui vários drives e para várias funções) é tão grande, a de compressão do amp tão pequena, e a transferência da rede para qualquer aparelho, mesmo um trimag, tão rápida, que só os mais preciosistas preocupam-se em transferir as amps que possuem para DVD. A maioria apenas mantém um backup e pronto.

- Analfa: burro, idiota, estúpido, aculturado, etc. Membro da classe baixa, em oposição ao apelido “Huxleyano” da elite (alfa). Gíria muito antiga que retornou ao jargão recentemente.

- Bal: prazer, satisfação breve e facilmente adquirida.

- Ecotec: aglutinação dos vocábulos “tecnologia” e “ecologia”. Todo utensílio ligado à preservação do meio-ambiente, particularmente os mais modernos.

- Escrotar: você pode imaginar o que seja.

Fabrique: da gíria francesa “fabriqué”, muito em voga nos idos de 2030. Adjetivo que designa artificialidade, algo “com cara de recém-saído da fábrica”, certinho, reto, perfeitamente angulado, quadrado.

- Fud: misto de boite, motel, prostíbulo e casa de jogos muito comum na noite carioca.

- Grito-Mestre: objeto, quase sempre um documento, de grande importância, ou contendo informação importante.

- HV: holovisão. Aparelho semelhante à TV, só que em 3D. O nome completo, em teoria, é Tele-Holo-Visão, mas ninguém usa esse termo, mesmo formalmente.

- Maltrão: membro da classe baixa (ralé). Termo levemente informal.

- Mercúria: micro-câmera voadora para uso pessoal, programada para rotacionar em torno do usuário e filmá-lo de ângulos diversos. Usada em conjunto com o trimeg, permite que o dono de um log seja acompanhado online realmente 24hs. por dia. O modelo e a logo-marca pertencem a Z.

- OC: abreviação de Oceania, conglomerado empresarial originariamente asiático que domina os mercados da produção artística (música, escultura, cinema, teatro – a mais decadente de todas, dança, escrita fictícia e documentária, em prosa ou verso, pintura, arte sequencial e interativa), além das tecnologias de transporte, agricultura, fornecimento de alimentos e congêneres. É encarregada do fornecimento de drogas e é a criadora do soma. Além disso, encarrega-se do que já foi o Poder Legislativo. Teoricamente, compete com a Z e a Styx, mas todos sabem que elas são parceiras no que concerne ao governo do mundo.

- Ouél: membro da classe econômica alta (elite). De conotação apenas levemente informal.

- Pé: membro da classe baixa (ralé). Termo razoavelmente pejorativo.

- Pop: uma ampliação do sentido de hoje em dia. Além de abreviação para “popular” e “popularidade”, é a unidade de medida de audiência, e usado para qquer coisa q envolva audiência ou fama em geral.

- Rap: adjetivo para escandaloso, chamativo, estiloso.

- Ritar: chamar, ligar para, “telefonar” (quase não se usa mais telefone desde a popularização do vídeofone); atingir, acertar, golpear.

RPC: abreviação de “rio pra caralho” (ou “rindo pra caralho”); inspirada no “laugh my ass off” americanos, é usado em conversas de texto da Rede como expressão de estado de humor do interlocutor, e denota, como se pode deduzir, riso intenso, quase incontrolável.

- Rúfer: chefão, homem de cima, quem manda; alguém que não abdica de uma vantagem.

Streamline: corrente em inglês, designa uma via de acesso de dados em rede.

- Styx: conglomerado empresarial europeu que domina todos os setores bio-medicinais e de extração mineral (da medicina à clonagem, do garimpo às Usinas Solares e Nucleares). Além disso, são encarregados dos serviços funerários e do que já foi o Poder Executivo local, isto é, exercido nas unidades federativas (prefeito, governador, etc.), visto q o Executivo Nacional não mais existe como tal. Teoricamente é competidora da Z e da OC, mas é fácil deduzir que elas, na verdade, auxiliam-se mutuamente para ditar o rumo da Nova Ordem Mundial.

Tiltado(a): pasmo, estupefato; catatônico.

Torre: denominação dada a um setor de armazenamento de informações digitais organizado em níveis.

- Trimeg: corruptela de 3mg, por sua vez abreviação de mini-multi-media gadget, descendente distante do celular que congrega as funções de videofone, videogame, reprodutor e gravador de arquivos de áudio e vídeo, câmera filmadora e fotográfica, além de transferência de dados usuário-usuário, e acesso completo à Rede. A tecnologia e a logomarca pertencem à Z.

- Z: o maior conglomerado empresarial do mundo, surgiu na América do Norte e dominou todos os setores de informática, comunicação, fornecimento de energia, navegação aero-espacial e, como se não bastasse, virtualmente todo o arsenal bélico do planeta. Controla a Justiça, a(s) Igreja(s), e os registros históricos, tanto em arquivo como em museu. Em teoria, compete com a OC e a Styx; alguns diriam que todas as 3 trabalham em conjunto para governar o planeta; mas não seria exagero nenhum dizer que é Z quem detém o poder de fato.

- Zerar: acabado, terminado, completo, como nos videogames, mas de uso mais amplo.

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O MANDANTE DO CRIME

Nome: Heitor Coelho

Idade: 76

Paradeiro: desconhecido

Formado em: Direito com pós-graduação em Astrologia Jurídica; Astronomia; Teoria da Levitação; Projeciologia.

Gosta de ouvir: sons das profundezas do inferno ou laranjas caindo no lodo, o que vier primeiro.

Livro: sua cara por um preço camarada.

Nas horas vagas: viagens ao Submundo.

Qual a intenção desse blog: contar uma boa estória. Não reparou, retardado?

Signo: adivinha.

Aí, galera do Megazine: vão se fuder!

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